quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estamos fartos de escândalos gospel

Por Mauricio Zágari

É isso aí: estou farto de escândalos gospel. Basta! Nao aguento mais chegar na igreja ou na internet e, antes mesmo de escutar um “bom dia” ouvir de cara: “Soube da última?”.  Meu Deus, que está acontecendo conosco? Por que nós, o povo chamado para ser sal da terra e luz do mundo, vivemos caçando a última fofoca do meio evangélico, o mais recente disse-me-disse, o babado do momento?! Em que ponto a desgraça alheia se tornou tão importante para nós? Algo está errado conosco. Muito errado. E temos que mudar isso.

Na época de minha conversão eu me reunia com o grupo de jovens da minha igreja e conversávamos sobre assuntos essenciais da fé. Falávamos dos fundamentos do cristianismo, de operações do Espírito, de milagres, de testemunhos, dos nossos sonhos com Deus, das experiências que tivéramos aquela semana com o Senhor, daquilo que

Jesus havia feito por nosso intermédio. Tirávamos dúvidas bíblicas, planejávamos estratégias evangelísticas e… orávamos! Orávamos muito. Por nossa igreja, nossos pastores, pelos departamentos da igreja, pela liderança, pelas atividades, pelos enfermos, pela salvação de almas. Por milhões de coisas que nos transportassem para a dimensão do Espírito. Tínhamos sede desesperada de Deus, Ele era nosso assunto predileto. Mesmo quando começávamos a falar de trivialidades, como futebol e outras perfumarias, a conversa acabava tomando um viés espiritual.

Mas hoje… hoje os irmãos se reúnem para comentar o último escândalo. Escândalos no ministério, então, fazem o maior sucesso: o pastor famoso da TV que enganou o povo com campanhas para comprar um jatinho. O pastor famoso do twitter que pregou heresias. O pastor emergente que lançou no youtube um vídeo irresponsável para promover seu último livro. O pastor que chamou outros pastores de “bundões”. O pastor que tinha caso com muitas meninas da igreja. O pastor que acusou outro pastor de ter casos com as recepcionistas de uma emissora de rádio. O pastor acusado que chama o acusador de “cachorro morto”. O pastor que adulterou. O adúltero que virou pastor.

Escândalos, escândalos, escândalos.

Basta! Outra fonte suculenta de escândalos é o meio artístico gospel. A cantora gospel que se arrastou pelo palco feito bicho. A cantora gospel que foi vista atracada com um homem no estúdio de gravação. O marido da cantora gospel que arranjou uma amante. O grupo gospel que foi cantar no Faustão por questões de marketing. A cantora gospel que falou mal da antiga gravadora num programa de auditório. O grupo gospel cujo solista rachou pra seguir carreira solo e ganhar mais dinheiro. O cantor que vem a público revelar que inventou profecias pra manipular o povo. Escândalos, escândalos, escândalos.

Basta! E no campo da política então! Os escândalos dão a tônica: é o pastor-deputado que sai no tapa com grupos gays. É o deputado daquela igreja xis que foi pego roubando. É o deputado da “bancada evangélica” flagrado recebendo propina. É o senador evangélico pego em maracutaias. É o vereador evangélico que bateu boca em público. Escândalos, escândalos, escândalos!

Meu Deus! Basta! Que escândalos ocorram é previsível. Sempre houve e sempre continuará havendo. Pois onde há homens há pecado e quando o pecado se torna público há escândalos. O problema não é esse, em essência. O problema é o que está havendo com os nossos corações. Por que razões nós adoramos esses escândalos?! Amamos falar dos que caíram. Apontamos o dedo para os que pecaram. Sorrimos com superioridade ao saber da queda daquele grande homem de Deus. Ficamos contentes de banir dos momentos de louvor o corinho daquele cantor gospel que foi pego fazendo o que não devia. Se sair em uma revista então! É a glória! Parece que o povo cristão tem sido acometido de um prazer sádico e sórdido de descobrir e comentar para o máximo possível de pessoas o último pecado que houve envolvendo alguma celebridade do meio evangélico. Quando deveria ser o contrário!
 
A Bíblia Sagrada nos ensina a chorar com os que choram. Por que em vez de sairmos comentando com todos os nossos irmãos sobre o pecado daquele pregador como velhinhas futriqueiras não nos lançamos sobre nossos joelhos e clamamos a Deus em meio a lágrimas pela restauração dele? A Palavra do Senhor nos ensina a tomar a adúltera pela mão, erguê-la da lama, dar-lhe amor e dizer “vai-te e não peques mais”.

Mas o que temos feito? Se a adúltera já está com a cara na lama nós pisamos em sua cabeça e a afundamos ainda mais no lodo. Que vergonha que sinto de nós quando vejo isso acontecer!

Temos vivido o “evangelho” da videocassetada, em que morremos de rir com o irmão que se estabaca no chão. Mas Jesus nos diz para levantar o abatido! Temos de levantar quem caiu. Dar-lhe amor. Conduzi-lo ao arrependimento. Fazer dele novamente uma ovelha sem feridas, embora com cicatrizes. Mas o que temos feito? Temos enfiado nossos dedos nas chagas dos feridos e retorcido nossas mãos até que a ferida sangre novamente. Infeccione. E depois levamos nossas mãos ensanguentadas à igreja e as exibimos, orgulhosos, aos irmãos: “Já soube da última”?

Bem-aventurados os pacificadores, aqueles que trazem a paz em meio à tribulação, à desgraça, ao escândalo. Bem-aventurados os misericordiosos, aqueles que nutrem pesar profundo pela desventura do próximo. Mas temos sido perversos. Nunca oramos pelos que são pivôs dos escândalos. Quer ver? Quantas vezes você orou por aquele pastor que está pregando que Deus não está no controle de tudo? Quantas orações vocé já dirigiu ao

Altíssimo suplicando que o pastor da TV que engana o povo com campanhas antibíblicas para arrecadar dinheiro se converta de seus maus caminhos, pare de pregar prosperidade e volte à vereda da justiça? Quantas lágrimas você derramou intercedendo por aquele político que se diz evangélico para que ele de fato venha a ser salvo pelo Senhor Jesus? Quantos minutos você dedica em oração por aquele ministério de louvor que se transformou numa empresa da música para que volte a ter como foco o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo? E agora compare: quanto tempo você passou comentando, criticando e alimentando o interesse por esses casos escandalosos?

Nós somos os culpados. Eu e você. Pois temos nos entretido sadicamente com os escândalos. Temos alimentado os escândalos em nossas conversas, tuitadas e blogadas.

Mas tenho buscado fugir deles. Sei que preciso avançar mais nesse sentido, pois ainda há em mim a semente do sadismo de pisar na cabeça do caído e espalhar aos quatro ventos o pecado dos outros, confesso. Talvez, refletindo freudianamente sobre isso, seja porque, ao fazer isso, eu me sinta um pouco mais normal por ser tão miserável como aqueles que são pivôs de escândalos. Mas fato é que de nossa boca não devem sair palavras torpes. E isso não se refere apenas a palavrões. Refere-se a palavras que não edificam. “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem” (Ef 4.29).

Temos de aprender a refrear a nossa língua. “A língua é um pequeno órgão do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha. Assim também, a língua é um fogo; é um mundo de iniquidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno” (Tg 3.5,6). E mais: a Bíblia deixa claro que vocé pode ser o cristão mais sem pecado do universo, mas se não consegue refrear a língua tudo o mais da sua fé é inútil, não serve para nada: “Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26). Você consegue perceber a seriedade disso? O peso que isso tem no mundo espiritual?

Não estou com isso dizendo que devemos varrer a sujeira para baixo do tapete. Esconder o que está errado não é a solução. Crimes e heresias devem ser denunciados. O grande problema dos escândalos é a nossa sede de sangue, nosso detestável prazer oculto e disfarçado de querer ver o circo pegar fogo. O prazer que nós, cristãos, eu e você, temos demonstrado ao diagnosticar a sujeira. E a satisfação que demonstramos ao propagar esses escândalos para as demais pessoas. Ao ouvir sobre a queda de um irmão, a primeira coisa que deveríamos pensar é “o que posso fazer para reerguê-lo?” e não “para quem posso contar que ele caiu?”.

Basta. Por favor, não venha me falar de escândalos entre evangélicos. Se quiserem que eu ajude a orar pelos que caíram ou se desviaram, contem comigo. Caso contrário, poupem meus ouvidos de toda sorte de sordidez perversa e sádica. Há males em nosso meio? Há. Há hereges e falsos pastores em nosso meio? Sim. Há artistas gospel mais preocupados com seus cachês do que com a exaltação do Altissimo? Muitos. Há bandidos, assassinos, pecadores, mentirosos e adúlteros em nossas igrejas? Aos montes. A pergunta que se faz necessária aqui é: como devemos reagir a isso? Jogando lenha na fogueira ou pacificando? Ajudando a apagar os incêndios e socorrer os feridos ou arremessando barris de gasolina nas chamas?

Temos reagido irresponsavelmente e de modo nada cristão ao alimentar essa multidão de escândalos. E, ao propagar os escândalos, quem se torna escândalo somos nós.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.


@ElieLFerreira

Reações:

0 comentários :

Postar um comentário